Terça feira. Chego em casa e sou logo avisado pela minha sogra que o gato quebrou o cano do chuveiro do banheiro do Grunho: o gato sobe no vaso sanitário, dali pula para a luminária que fica sobre o espelho, caminha sobre ela e alcança o trilho do box. Do trilho, passa por cima do cano do chuveiro para enfim chegar ao vitrô. Fica horas lá, todo torto, apenas olhando pra fora. Não pula porque o chão fica a dois metros e meio abaixo, muito perigoso. Então ele só fica lá, entre as lâminas do vitrô, na sua eterna vigilância em busca do sabe-se-lá-o-quê.
Como vamos dar banho no Grunho hoje? - pensei. Fácil! Vou fazer o que faço na praia: sento no chão do box (ficar agachado não dá, minhas costas vão para o beleléu), deixo a Fernanda em pé e pronto. Enquanto Vivi preparava as roupinhas dela, fui ao banheiro com a intenção de ligar o chuveiro e deixar esquentar um pouco, pois estava muito frio. Percebi que a minha idéia não ia dar certo: a água que saía quase fervendo do chuveiro chegava já fria lá embaixo. E agora?
Não teve outro jeito: tomamos banho juntos, eu a segurando no colo com um braço e ensaboando-a com o outro. Enquanto isso ela cismava: olhava para cima para ver de onde a água vinha e acabava se afogando, queria pegar o sabonete, o shampoo, mexer no registro, no chuveirinho, no controle de temperatura do chuveiro, no box, nas toalhas penduradas...
Meia hora depois, banho tomado, dou-a para Vivi enquanto eu tomo meu próprio banho. Não foi tão ruim - mas meu braço ficou só o pó.
Pois bem. Quarta-feira, hora do almoço, passei numa casa de material de construção e comprei outro cano. Cheguei em casa, tive o maior trabalho para arrancar de dentro da parede o pedacinho do outro cano que ficou lá grudado, instalei de novo o chuveiro, testei, fui jantar.
Dez minutos depois, ouço um estrondo - adivinhe o que tinha acontecido. Tive ódio. Peguei o gato, quis enforcá-lo, não consegui. De novo, banho no colo, se afogando ao olhar para cima para ver de onde a água vem, querendo ao mesmo tempo pegar o sabonete, o chuveirinho, o shampoo, o registro, o controle de temperatura...
Amanhã vou, mais uma vez, arrancar o pedacinho do cano que ficou enfiado na parede, instalar de novo, testar e ir jantar. Mas desta vez eu juro: vou prender um gancho no teto e nele amarrar um arame para sustentar o cano. E se mesmo assim aquele gato conseguir quebrar o cano de novo, eu mato mesmo aquele desgraçado.