quinta-feira, 7 de junho de 2007

O gato e o chuveiro

Terça feira. Chego em casa e sou logo avisado pela minha sogra que o gato quebrou o cano do chuveiro do banheiro do Grunho: o gato sobe no vaso sanitário, dali pula para a luminária que fica sobre o espelho, caminha sobre ela e alcança o trilho do box. Do trilho, passa por cima do cano do chuveiro para enfim chegar ao vitrô. Fica horas lá, todo torto, apenas olhando pra fora. Não pula porque o chão fica a dois metros e meio abaixo, muito perigoso. Então ele só fica lá, entre as lâminas do vitrô, na sua eterna vigilância em busca do sabe-se-lá-o-quê.

Como vamos dar banho no Grunho hoje? - pensei. Fácil! Vou fazer o que faço na praia: sento no chão do box (ficar agachado não dá, minhas costas vão para o beleléu), deixo a Fernanda em pé e pronto. Enquanto Vivi preparava as roupinhas dela, fui ao banheiro com a intenção de ligar o chuveiro e deixar esquentar um pouco, pois estava muito frio. Percebi que a minha idéia não ia dar certo: a água que saía quase fervendo do chuveiro chegava já fria lá embaixo. E agora?

Não teve outro jeito: tomamos banho juntos, eu a segurando no colo com um braço e ensaboando-a com o outro. Enquanto isso ela cismava: olhava para cima para ver de onde a água vinha e acabava se afogando, queria pegar o sabonete, o shampoo, mexer no registro, no chuveirinho, no controle de temperatura do chuveiro, no box, nas toalhas penduradas...

Meia hora depois, banho tomado, dou-a para Vivi enquanto eu tomo meu próprio banho. Não foi tão ruim - mas meu braço ficou só o pó.

Pois bem. Quarta-feira, hora do almoço, passei numa casa de material de construção e comprei outro cano. Cheguei em casa, tive o maior trabalho para arrancar de dentro da parede o pedacinho do outro cano que ficou lá grudado, instalei de novo o chuveiro, testei, fui jantar.

Dez minutos depois, ouço um estrondo - adivinhe o que tinha acontecido. Tive ódio. Peguei o gato, quis enforcá-lo, não consegui. De novo, banho no colo, se afogando ao olhar para cima para ver de onde a água vem, querendo ao mesmo tempo pegar o sabonete, o chuveirinho, o shampoo, o registro, o controle de temperatura...

Amanhã vou, mais uma vez, arrancar o pedacinho do cano que ficou enfiado na parede, instalar de novo, testar e ir jantar. Mas desta vez eu juro: vou prender um gancho no teto e nele amarrar um arame para sustentar o cano. E se mesmo assim aquele gato conseguir quebrar o cano de novo, eu mato mesmo aquele desgraçado.

domingo, 3 de junho de 2007

E as batidas de cabeça então?

Grunho parece ter um íma: a 'pequena' cabeça dela é atraída por tudo: de móveis à paredes - ou será o contrário, as coisas é que são atraídas? Talvez devido ao tamanho avantajado, a cabeça do Grunho crie algum tipo de força gravitacional, assim como aquela que mantêm os planetas nos seus lugares, que fazem as marés obedecerem ao comando da Lua. E o mais interessante: parece que as forças agem mais na região da testa, lado direito. Um caso que deve ser estudado.

Mas a verdade é só uma: há uma atração. Por quinas metálicas, então, nem se fala. Na maioria das vezes, o resultado é só um berreiro e uma vermelhidão que logo passa. Em outras cria-se o tal galo - que depois vira um verdadeiro arco-íris: começa roxo, depois fica verde, marrom, amarelo... E antes que este suma, lá pelo terceiro ou quarto dia, quase que invariavelmente aparece outro - não raro no mesmo lugar.

O pior é que a coisa acontece em nanossegundos - na maioria das vezes nosso cérebro já velho não nos permite reagir a tempo de evitar a 'tragédia', e a única coisa que nos cabe é assistir a ação da lei da gravidade (ou da gravitação) agir. Invariavelmente ficamos depois com o sentimento de culpa, de incompetência - um remorso muito grande não por não ter feito nada, e sim porque quase nunca dá tempo de fazer alguma coisa. E quando começa a andar então?

Mas aí o tempo vai passando, outros galos aparecendo e sumindo, outros berreiros - aí você começa a aceitar que tudo isso faz parte, e que a única coisa que você poderia fazer para evitar seria deixar a criança presa ao teto por uma corda...

Deviam mesmo é inventar um capacete para essa criançada, ou um sistema de air-bag para o caso de tombos. Lucro certo para a fábrica - e a única forma de impedir que essas coisas aconteçam.

Histórias Fernândicas

É. "Depois que você tem filhos, sua vida muda."
Com certeza você já ouviu esta frase. Provavelmente nem deu bola, pois achou que as mudanças ficariam restritas a ter que levar a casa junto para um simples passeio no shopping. Pois é. Se você pensou assim, sinto lhe dizer: está redondamente enganado.

Tudo muda: desde a mais simples rotina de acordar de manhã para ir ao trabalho, até a escolha do hotel onde você quer passar as merecidas férias, nem que estas durem apenas um final de semana. Quando não se tem filhos, qualquer pocilga serve: afinal hotel é pra dormir, e se você quisesse luxo teria ido para um resort. Mas com filhos... Primeiro que tem que ter acesso fácil: esqueça aquele chalé maravilhoso no meio das montanhas, cujo acesso dá-se por estrada de terra quase intransitável quando seca e um verdadeiro atoleiro quando chove; se por acaso chover, sacudir, o carro atolar e o bebê começar a chiar, ao invés de descansar você vai é se estressar.

Não se esqueça de que pousadas simplezinhas também são perigosas, pois o bebê vai precisar de uma certa estrutura: um microondas para a mamadeira/papinha, um berço - porque senão você não vai dormir só de pensar na possibilidade do bebê rolar da cama e estatelar-se no chão - e uma banheirinha para o banho, que aliás tem que ser quentinho. Nem venha com aquela idéia natureba de tomar banho na cachoeira, pois não vai dar certo. Se o bebê está na fase do suquinho, você precisa checar antes se há possibilidade de alguém no hotel - ou até você mesmo - fazer o suquinho do jeitinho que é feito em casa, sob pena do bebê não gostar, espernear e você se estressar. Achou muito? Estou exagerando? Que nada. E isto é só o começo, você vai ver.

"Histórias Fernândicas" vem justamente para tentar ilustrar, sempre com muito bom-humor, as pequenas coisas que acontecem no dia-a-dia de quem tem filhos, coisas simples que passariam desapercebidas a um olhar mais desatento. Mas que são histórias interessantes dos nossos filhos, passagens que devem ser guardadas na memória - e relembradas sempre.

Seja bem-vindo!

Domingo, dia de shopping

Mais uma vez não fomos para a praia. A previsão era de chuva,tempo ruim. Definitivamente, praia com chuva não dá. Mesmo que esteja nublado e literalmente "não dê praia", ainda assim é possível passear no calçadão, tomar um sorvete; mas com chuva a única coisa seria ir ao shopping ou ficar no apartamento. Preferimos adiar, mais uma vez, a ida à praia.

Então, como sempre, sobram N coisas para o final de semana, já que durante a semana o relógio corre depressa e não sobra tempo pra mais nada além da rotina básica "acordar-trabalhar-voltar pra casa-dormir". E hoje, para não passar em branco, fomos mais uma vez ao shopping que fica a cinco quadras de casa.

Saímos por volta de 17h de casa, e lá pelas seis a Fernanda começou a "alarmar" de fome. Usamos este termo porque na UTI, quando as incubadoras esquentam demais, começam a berrar um som agudo e insuportável, que nenhum enfermeiro em sã audição consegue suportar. E como a chatice da Fernanda também é difícil de suportar, dizemos que ela está alarmando...

Pois bem. Vimo-nos no meio do shopping, sem nenhum tipo de suporte (bolsa com apetrechos, mamadeira, essas coisas que você começa a deixar em casa depois que adquire um pouco de "experiência"), a não ser o fraldário do próprio shopping, que dá fraldas, carrinhos e tudo o mais. Mas lá não tem comida - e muito menos aquela que a Fernanda está acostumada a comer: a papinha da vovó.

Sugeri então, num ato de desespero causado pelo "alarme", que voltássemos para casa. Mas aí começamos a pensar: pô, estamos num shopping, será que não tem nada aqui que elapossa comer?

ez segundos depois, veio a luz: um restaurantezinho chamado Giraffa's, que quase todo shopping tem. Achamos uma mesinha, sentei com a Fernanda enquanto minha esposa ia lá conferir o cardápio. Acabou comprando um prato de arroz, feijão, peito de frango empanado e batatas fritas. Hmmm, que criança não ia gostar disso, ainda mais "temperado" pela fome?

Mas aí teve um problema: o talher. Lá só tinha colher de sopa, garfo e faca. Aí já é pedir demais - muita mudança, muita novidade para um dia só. O suco ela já aprendeu a tomar de canudinho - por isso não nos preocupamos mais com mamadeiras, copinhos de treinamento ou o escambau. Tá com sede? Chupe o canudinho. É fácil - e ela já sabia fazer isso.

Fernanda começou a se estressar porque não conseguia lidar com o garfo. O cadeirão que o shopping fornece, que estava limpinho quando pegamos, já estava precisando de uma boa lavada. Precisamos de uma colherzinha de plástico, pequenininha, que caiba na boca da Fernanda. Mas onde?

Olhei para trás. Vi um Bob's. Ahá! Eis-me lá, no balcão do Bob's, pedindo uma colher. O rapaz, atencioso, ainda disse o 'volte sempre' do script obrigatório... No restaurante ao lado, consegui vários guardanapos - após é claro ter comprado uma tônica para a Vivi.

Ah, agora sim. Fernanda comeu bastante: arroz, feijão, quase que o peito de frango inteiro, um monte de batatas fritas e uns bons goles de suco. Aí ela viu a latinha de tônica, aquela Schweppes (ô nomezinho ruim este, não?). Começou a querer a latinha, com seu amarelo reluzindo sob as luzes fortes do shopping. Tentei não dar, estava cheia, ia derramar, fazer meleca. Fui cruel - ou melhor, tentei ser cruel: dei a latinha para que ela experimentasse, na esperança de que o gosto amargo daquela coisa fosse fazê-la perder o interesse.

Ledo engano - mais um. Essas crianças nos surpeendem, não? Bebeu com mais vontade do que o suco - e nem careta fez, apesar da tônica (não vou escrever o nome dela de novo, muito ruim) estar estupidamente gelada e cheia de gás. Dá pra entender? Foi muito engraçado.

Hora de ir embora. Fomos lá no fraldário devolver o carrinho - porque levar aquele trambolhão que temos em casa não é fácil - e caminhamos para o carro. Eu levava Fernanda no colo, mas seus 11kg pesam. Aí eu olhei para ela e disse: "mas porque eu estou te carregando?"

Colocamo-la no chão. Ela ainda não anda sozinha, só com as mãos dadas. Então eu peguei uma mãozinha e a Vivi a outra, e fomos. Acontece que mesmo não sabendo andar, ela quer andar na nossa frente, mais rápido. Às vezes cambaleia, quase cai, mas ri, levanta e anda no mesmo passo.

Para chegar ao estacionamento, há duas esteiras rolantes. Queria só ver como é que ela faria ao chegar na esteira. Pedi que a Vivi não a levantasse, que deixasse ela ver como era. E não é que a danadinha se deu bem? Ao entrar na esteira deu uma cambaleada, mas quando estava chegando no final ela já levantou uma perna, antecipando o passo que teria que dar para não perder o pequeno eqüilíbrio que tem. Espertinha...

Por isso eu digo: quer fazer de sua ida ao shopping uma pequena aventura? Tenha filhos. E leve-os lá. E fique atento às pequenas coisas que essas coisinhas minúsculas fazem. Coisas que ficarão na sua lembrança para sempre!